quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Retalho de Ladrilho
olhares mais vazios, menos surpresos
iam dar em não sei onde que pra lá rume
semblantes cansados, encolhidos e indefesos
firme mesmo só o chão sob as botas
o enxovalho nos ombros, o vitupério infame
zumbido na cabeça aos enxames, suor nas frontes às gotas
vilipendiados, esquecidos, já nao há quem os ame
sobra dor, há lagrimas, falta quem as derrame
sobra quem falta coragem, lágrimas fundem com sangue
rola a face, corre o peito, vão morrer no chão vil, infame
vitupério grita na vileza do vilarejo
cospem, batem, e você faz o mesmo, aproveita o ensejo
pisam de olhos fechados pelas mesmas calçadas, diferem os calçados
a vista turva, anuvia a mente e o que não se vê, não se sente
semente pecaminosa, ode ao caos, sepulcros calados
frutifica na dor, floresce do jazigo urbano frente toda a gente
e ainda não se sabe o motivo do sangue na calçada, talvez por não ter importância
morte da rua, que se esvai de madura sem passar pela infância
rOg Oldim / AgaGomez
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
O que é do diabo...
Nem me venha com “pra onde vamos?”
Você não está nos planos
Sinto muito ter que agir assim
Na verdade, não sinto, mas ao desdentado faminto,
Melhor sonhar com picanha do outro lado do muro
A ter de se virar aos murros com pedaço de pão duro
Não se preocupe, não faço somente a você distinto.
Da porta pra dentro, só eu e o que poderia ser eu
Sem ter que ser o mundo todo, entendeu?
Dito isso, meu bem, livre-se dessa cara
Amarrada, Enrugada, Emburrada que só ela
Larga mão de querela pela aquarela
Trate de dar um jeito nela,
Pois, a ela, palhaço nenhum sara
Se um dia voltar a me preocupar com os outros
Você será o primeiro, não o único
Palavras ao ar, sou verso solto
E não chie! Sabes bem que nunca o fora
E não seria agora, depois de ter tido
Eu comigo mesma, um aparte
Que tal sorte, mudaria destarte
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Fotografia amarela de fundo de gaveta
O espetáculo já vai começar. Desde que entrou em cartaz, compro todos os ingressos. Não divido. Rasgo todos. Reservo um único bilhete no bolso direito. No esquerdo, guardo aquele lencinho azul desbotado. Presente de aniversário de vinte e poucos anos, lembra? Eu não gostei muito. Mas foi nele que minhas lágrimas pousaram quando apareceram com aquela coroa cravejada de flores. "Deixem de bobeira! Ela só está dormindo. Dormindo. Eu também quero dorm...". O pedaço de pano velho e amarrotado - cor de céu quando chove - mais uma vez, faz companhia ao cinza dos meus olhos. Nuvens à vista naquele céu de lembranças. Elas não me deixaram. Nele, desaguam as águas que procuram ocupar-me, quando volvo os olhos atentamente para aquele espetáculo repetido, incansavelmente assistido.
Toc toc. "Todo mundo tá esperando você. Traz logo esse troço". Pedra no lago. O encanto de Narciso é quebrado. Volto a mim. Resoluto. A figura mitológica teria procurado um espelho. Eu só tinha aquela fotografia para tentar me encontrar. Encontrá-la. A imagem amarelada de jovens sorridentes. Por que sorriem? Ah, se soubessem o que aguardam vocês. Poupariam estes sorrisos. Este morreu de amores por aquela ao lado da professora. Aquela virou freira e..não gosto nem de lembrar. Aquele ali se casou com aquela moça linda. Cobiçadíssima.
"divagando devagarinho, sem pressa, a coisa acaba.."
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Chuva
Ninguém vai dormir aqui.
Não quero esconder minhas infelicidades
atrás de um rosto que se desfaz e sorri,
embaixo de um já amargurado travesseiro
ou esquecer tudo nas visões ilusórias dos sonhos que virão,
mais parecem saudades.
Quero ouvir a chuva lá fora bater com força na telha.
Poderia ser minha carne.
Quero ouvir a chuva molhar a terra.
Poderia ser meu sangue derramado na guerra.
Quero ouvir a chuva cair.
Poderia ser meu corpo, minha causa.
Que causa?
Não tenho causa, sou chuva sem propósito, que cai, e só cai.
“Feche os olhos, meu filho, e pense em algo bom”.
“Mãe, já pensei. O que eu faço quando abrir os olhos e vir que nada do que eu pensei existe?”.
“Existem coisas que você não pode ver. Só sentir. A chuva está lá fora.”
Chuva
Passos apressados, o rapaz olha pro relógio, a senhora da um pulinho para cima da calçada evitando ser atropelada, segue em passos tranqüilos após isso como se nada tivesse acontecido, afinal, isso é São Paulo, cidade que não dorme, todos apressados e mal alimentados, vários escravos do relógio transitando como vítimas aleatórias de um tabuleiro de asfalto e concreto.
A água do céu castiga, os guarda-chuvas se esbarram pelo corre-corre do centro, um homem se esconde embaixo do terno, outro corre com um jornal sob a sua cabeça, na esquina da frente pode-se ver um táxi dando um banho nas pessoas mais desatentas ao passar sobre uma poça d’água, uns gritam, outros xingam indignados, os mais acostumados seguem a seu destino sabendo que permanecerão molhados independente de quando resmungarem. Moto boy com sacolas amarradas em suas botinas, office boys com o tênis aberto em baixo tendo de trabalhar o dia todo com os pés ensopados, protegendo os documentos contra a rasura da chuva e esquecendo-se de se proteger contra a gripe, a pneumonia...
Chove em São Paulo, o trânsito sofre a nítida conseqüência da vagarosidade, já não temos mais horário, agora dependemos da boa vontade do tempo.
As ruas viram piscinões, os barracos são alagados, casas de madeira viram brinquedos de papel, móveis são perdidos e sonhos afogados, chove em São Paulo.
No cefé a água escorre pelo vidro e a água caindo incansável torna mais aconchegante o cenário de um casal apaixonado, chuvinha gostosa que embala o namoro, a fumaça quente de um copo de chá, dedos cruzados, chove em São Paulo... a melhor das condições climáticas para se descansar de não fazer nada, um friozinho e uma coberta, o barulho da água nas telhas, o homem dorme enquanto a chuva castiga, sua preguiça se estica por mais horas do que de costume, o corpo aquecido pelas cobertas, sem duvida, essa “chuvinha” convida para a cama.
Mendigos foram acordados por ela, suas cobertas estão encharcadas, seria uma piada de Deus? Por que dessa chuva toda levando seus castelos de papelão, tornando a disputa por um espaço em baixo do toldo quase uma questão de violência, “maldita seja essa chuva!” se ouve um grito engasgado por de trás de barbas brancas, roupas rasgadas e uma pele suja, pés descalços pisando nas poças correntes trazendo leptospirose e hepatite.
Enquanto paralelamente, sob o solo rachado e matos caídos, o menino ajoelha-se frente aos galhos secos de uma árvore morta, os olhos fechados, a testa lavada pelo suor que escorre de seus olhos a sua barriga, os dedos cruzados, a garganta seca “meu Deus, faça que um dia a chuva chegue até aqui pra minha mãe descansar, pra regar as plantinhas e lavar nossa terra”.
A pele escura e um pano enrolado em sua cintura, um braço aberto mantém o equilíbrio do corpo o outro apóia um latão d’agua sobre sua cabeça, a imagem da mãe surge aos poucos em uma linha do horizonte, ali estava o remédio pras feridas do filho, a água do feijão, o “lava roupas”, o banho, o suco e a vida, dentro de um balde buscado a kilometros de seu lar de madeira, tesouro que talvez só seja visto no próximo mês,
Será economizado e valorizado, como tudo que se adquire no Nordeste, o menino sorri satisfeito e abraça sua mãe.
Na cidade o drama do caos, o pesar do dilúvio, casas já não existem, famílias tendem a se abrigar em qualquer outro canto, seja albergue, seja uma ponte. O que fora conquistado a anos de suor, puxando uma carroça, catando papelão, vendendo latinha, a chuva levou, o pai de família pega um filho em cada braço, o mais velho caminha, a esposa resmunga, ele agradece a Deus “Senhor, cheguei a essa terra sem nada, tudo que tenho me destes de bom grado, vim do pó e a ele regressarei, nada vou levar daqui meu Pai, graças a Deus por ter saúde para conquistar tudo novamente, sozinho não sou nada, me ajude e me de forças mais uma vez meu Papai, obrigado por olhares por mim”.
O relógio desperta as 10:30 da manhã, em um colchão macio e um quarto espaçoso, o rapaz procura o celular em baixo do notebook e entre os edredons até achá-lo caído no chão perto das chaves do carro, disca um número decorado em alta velocidade e agita alegre “Eae, preparado pra praia meu brother?” a voz do outro lado manda que olhe pela janela, ao abri-la o sorriso morre e com um soco no batente as palavras expressam o desanimo “não acredito nisso, ta chovendo! Que vida de merda, as coisas nunca dão certo pra mim! Valeu mesmo em Deus!”
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Infidelidade/ Traição
Em tons confessionais...
De meros desconhecidos cuja vista sequer se encontrava, passamos rapidamente a íntimos confidentes. Com a mesma rapidez que a vida se trouxe, fez questão de se tornar tão próximo a mim que juntos não éramos nada senão aquilo que mais se aproxima do significado de cumplicidade. Havia empregado para isso uma faceirice tão forte a ponto de destronar a timidez reinante das primeiras palavras. Veio até mim caminhando. Eu mal andava. Em pouco tempo corríamos juntos.
Eu procurava fazer dos meus movimentos algo que se assemelhasse aos seus. A qualquer tropeço, não temíamos a queda e a aspereza do chão, pois sabíamos que encontraríamos amparo no aconchego do braço um do outro. Toda injúria proferida contra um de nós encontrava no outro um defensor ferrenho e seu principal revogador. Nossa relação se construía na diversão, consolidava-se na provação e como resultado transbordava confiança, a fazer acreditar quem nos visse falar do outro que a amizade que nos unia havia evoluído, e esse novo sentimento era, na verdade, o que proporcionava tal elo entre nós. Como se a só amizade já não fosse suficiente para manter unidos dois seres e que houvesse estágio superior a ela.
Aqueles contratos a que se propõem os amigos inseguros do estado de felicidade de que gozam não eram necessários entre nós. Tudo estava implícito entre nós. Ao “eu te amo” era acrescido por meio de um olhar o “eternamente”. E isso bastava. Era absorto em toda essa prazerosa condição que eu arriscava lançar-me ao vale das sombras munido apenas de suas lembranças e de uma certeza. A de que você estaria me esperando ao final de tão tenebroso caminho.
O que aconteceu para que tão surpreendentemente quanto o arrebatamento que o trouxe a mim, tornasse você a fonte das injúrias; o responsável por me levar ao solo das formas mais bruscas. Subitamente. Sem motivos aparentes nem aviso prévio sua conduta foi minando tudo que de melhor poderia existir entre duas pessoas. Traiu, então, aquele olhar que tendia ao infinito sem se abalar e transportava-me com igual tranqüilidade para qualquer lugar dessa imensidão, aquele olhar que eu podia confiar cegamente que me poria tão logo eu quisesse sob o conforto de seu alcance.
Não devia ter semeado em mim a semente da confiança se tinha ciência da sua limitação em não conseguir preservar aquilo que com os olhares não se cansava de declarar.
Infidelidade/ Traição
Traição, infidelidade, palavras bem fortes...
Talvez palavras das mais fortes, pois a partir delas você pode quebrar toda a postura de um homem, pode-se ver se o seu caráter um dia foi mascarado, se sua palavra caiu por terra.
Existem coisas que eu gosto na vida, dentre as que não gosto talvez o dinheiro seja uma das maiores, ele compra quase tudo, dá oportunidade a pessoas que nem as fazem por merecer, mas das que gosto, a maior é uma só, confiança. Ah... isso sim é uma palavra forte. A confiança é algo único, você jamais a conquistará só por ser digno de confiança, ou por estar certo, você não conquista a confiança por ser de confiança. Tá aí uma coisa que moeda alguma compra, isso você conquista sozinho, sem saber, sem perceber e sem querer, mas um dia você a conquista e enquanto for digno dela, estes são bons dias para ti.
Não importa o que digam, não corromperão sua imagem, não farão a cabeça daqueles que confiam em você, pois essa semente já floresceu, porém se um dia ela for quebrada, então tudo se acaba, nunca mais voltará a ser como antes...
E por que as pessoas deixam que isso aconteça? Eu não sei, talvez o descaso, talvez o não dar tanta importância a isso, mas certas pessoas acabam traindo a confiança e nunca mais a recuperam.
O mal maior é este, você não pede desculpas, não promete mais nada, não compra, não age, você não a tem novamente 100%, nunca mais.
Algumas pessoas gostam de estar juntas, talvez por afeto, talvez por carinho, talvez por necessidade ou talvez seja só carência mesmo, mas as pessoas assumem compromissos e daí à frente elas necessitam honrá-los. Não por aliança, não por uma gravata, um terno ou um vestido, mas por que você deu a sua palavra, você se prontificou a viver desse amor em todas as situações, na saúde ou na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte venha vos separar.
Mas tem as pessoas que tropeçam no meio do caminho e praticam a infidelidade. Essas pessoas não honram com o que Há de mais digno, sua própria palavra. Não importa o que aconteça, nada justifica o ato, traição, este é um pecado imperdoável na terra.
Não seria melhor não assumir compromissos se não os podem honrar? Não seria melhor simplesmente cumprir com tudo o que teima em dizer em emoção ou então não dizer nada?
As pessoas deixam de ter um valor humano quando traem, homens, mulheres, maridos, amigos, a traição é o pecado mais triste, a dor que mais fere, o sentimento que deixa a maior seqüela...um pensamento que nunca acaba, um entendimento que nunca virá.
Existem pessoas infiéis e traidoras, para todas essas pessoas fora criado seu respectivo lugar, mas a cada dia em que respirarem, vão sentir o cheiro do remorso e esse gosto eu espero que dure por toda a sua essência, desejo que seus dias na terra se prolonguem e sejam bem lentos para que possam desfrutar dos males que fizeram, nada vale uma confiança perdida.
Deus fez a Terra, o homem, os animais, os insetos, os vermes e os traidores, ele escreve mesmo certo por linhas tortas, mas o homem faz questão de rasurar tudo...